Na noite de terça e madrugada de quarta, a minha companheira foi a peça de teatro Entre Quatro Paredes (1944) de Jean Paul Sartre, a frase O inferno são os outros, muito me faz pensar que; nem toda violência faz barulho. Algumas acontecem em salas fechadas, em conversas aparentemente calmas, em palavras bem escolhidas e em lágrimas que, muitas vezes, acabam deslocando o centro daquilo que realmente precisa ser dito. E talvez uma das experiências mais dolorosas seja justamente essa, quando uma pessoa que tenta se posicionar passa a ser tratada como o problema, enquanto aquilo que a feriu, incomodou ou a confundiu é suavizado, relativizado ou colocado em segundo plano. Pensando bem, nem sempre quem leva uma situação à direção está criando conflito. Às vezes, está apenas tentando não bugar em silêncio, se recusando a normalizar o que considera injusto, desrespeitoso ou emocionalmente sufocante. Penso que, em muitos ambientes, a verdade incomoda mais do que o erro, e a coragem de falar pesa mais do que aquilo que motivou a fala.
Talvez seja muito fácil dizer que alguém “não aceita o não” quando, na verdade, o que incomoda é o fato de essa pessoa não aceitar o apagamento, o silenciamento e a tentativa constante de ser encaixado em uma paz aparente que só existe para quem nunca precisou engolir nada para continuar pertencendo. Na maioria dos contextos, não se pune exatamente a desordem, mas a ousadia de quem se recusa a sustentar uma ordem injusta apenas para preservar a tranquilidade dos outros.
Há ambientes que não sabem lidar com pessoas que percebem demais, sentem demais e pensam para além da superfície. Porque quem enxerga o que está por trás das aparências inevitavelmente desorganiza a zona de conforto de quem prefere manter tudo no nível da conveniência aceitável. E então a lógica se inverte, desaparece a questão real e o foco passa a ser a reação de quem teve coragem de não fingir que estava tudo bem.
Talvez uma das formas mais cruéis de violência seja justamente essa, quando tentam convencer alguém de que sua dor é exagero, sua percepção é inadequada e sua voz é um incômodo. Não porque ela seja falsa, mas porque ela toca em algo verdadeiro demais para ser confortavelmente ignorado.
No fim, olhando bem minha trajetória histórica, pode ser que o problema não é “não aceitar o não”, pode ser não aceitar ser diminuído, moldado ou silenciado para caber melhor no conforto emocional de quem jamais suportou ser confrontado. Sartre em sua peça, mostrou uma sala, representando o inferno, sem espelhos ou saídas, fazendo assim com que todos se tornam juízes uns dos outros, dando então a alusão ao pensamento de que existe uma diferença profunda, entre ser uma pessoa difícil, imatura, ou ser alguém que simplesmente decidiu não desaparecer no sistema, para manter a paz aparente de um ambiente que prefere o silêncio convencional à honestidade intelectual.
