Existe algo profundamente obsceno e diabólico em nossa sociedade que se ajoelha na Sexta-feira Santa e se prostitui diante do mercado no dia seguinte!
Ontem, as igrejas estavam cheias...
Cheias de comoção, gestos litúrgicos, olhos baixos, de "aparente reverência".

Mas hoje ao amanhecer, mal o silêncio do sepulcro começou a falar, e uma cidade "cristã", cheia de "virtudes" e "espiritualidade", voltou a correr como cães famintos para as vitrines, o consumo, a distração, e para a velha liturgia do capital.
E então a pergunta do universo, do cosmos e da criação se impõe, incômoda e inevitável:
De que vale beijar a cruz, se continua vivendo em aliança com tudo aquilo que crucifica?
Porque Cristo não foi morto apenas por alguns homens no passado. Cristo continua sendo morto sempre que a vida humana é subordinada ao lucro, sempre que o pobre é tratado como dano colateral, quando a fé é reduzida a um ritual e a consciência permanece intacta e inconvertida ao mistério universal?
O capitalismo, quando se torna absoluto, não é apenas um sistema econômico, mas uma pedagogia da indiferença. Ensinando a desejar e a consumir sem consciência, convivendo com a miséria sem escândalo, como se fosse o normal, transformando o irmão em número, custo, utilidade.
Nessa ideologia maldita e perversa, o outro perde o rosto e Cristo volta a ser pregado na cruz.
Por isso, a contradição é insuportável aos meus olhos, muitos choram diante da imagem do Crucificado, mas não choram diante dos crucificados da história.
Comovem-se com a madeira da cruz, mas não com a carne ferida dos que continuam sendo esmagados pela lógica da exploração, da falta de moradia, do descarte, e do privilégio.
Essa piedade que emociona, mas não converte, não pode ser fé!
É apenas estética religiosa, numa tentativa de tocar o sagrado sem precisar renunciar a idolatria moderna, e o ídolo de hoje tem um nome; (mercado, consumo, aparência e acumulação).
Por isso, talvez o maior escândalo não seja a ausência da religião no mundo, mas seja justamente a convivência pacífica entre devoção e injustiça, oração e egoísmo, cruz no peito, reuniões, retiros religiosos e ideologia capitalista no coração!
O problema nunca foi a falta de gente nas igrejas como ensinado por muitos grupos e mídias religiosas, mas a abundância de religião e a escassez de conversão!
Digo mais uma vez; ontem muitos de nós beijamos a cruz, mas hoje muitos voltaram a servir
ao que a ergueu, sendo está a forma mais sofisticada de blasfêmia: chamar Cristo de Senhor
e continuar fiel ao mundo que o mata!
Como escaparemos da justiça, se abusamos da verdade misericordiosa? 💔
