O AGRONEGÓCIO E A MUDANÇA DO TEMPO

 Enquanto o agronegócio cresce e "impulsiona" a economia, o clima muda e cobra a conta de um modelo que ignora seus próprios limites ambientais.

IMAGEM: O gigante que colhe o que planta 
O agronegócio é frequentemente celebrado como o motor da economia brasileira. Soja, milho, carne e algodão garantem superávits comerciais e sustentam o orgulho nacional de “celeiro do mundo”. No entanto, por trás dessa imagem de prosperidade, há uma contradição cada vez mais evidente: o mesmo setor que mais depende da estabilidade climática é também um dos que mais contribui para a crise ambiental que ameaça o futuro de sua própria produção.

Nos últimos anos, as mudanças no regime de chuvas e as ondas de calor extremo têm deixado um rastro de prejuízos no campo. Um estudo publicado na revista Agriculture (MDPI, 2024) estimou que, nas últimas cinco décadas, as secas provocaram perdas de cerca de 11,65% da produção nacional de soja, o equivalente a 280 milhões de toneladas um prejuízo de US$ 152 bilhões. No Sul do país, a agricultura foi o setor mais afetado por desastres climáticos entre 2010 e 2023, acumulando R$ 75,2 bilhões em perdas. Esses números mostram que a mudança do tempo já não é um problema distante: ela afeta diretamente a base produtiva que sustenta a economia rural.

Mas o agronegócio não é apenas vítima; é também um dos protagonistas ativos dessa transformação do clima. Segundo o relatório do MapBiomas, quase 90% das áreas desmatadas no Brasil em 2023 estavam concentradas em menos de 1% das propriedades rurais justamente as de grande porte, ligadas à expansão agropecuária. O setor foi responsável, direta ou indiretamente, por 74% das emissões brasileiras de gases de efeito estufa no mesmo ano, somando pecuária e mudanças no uso da terra. Essa dinâmica cria um círculo vicioso: quanto mais floresta se derruba, menor é a umidade no ar, mais irregulares ficam as chuvas e maiores os prejuízos para a própria produção agrícola.

A contradição se agrava porque parte do setor ainda insiste em negar as causas ambientais dos eventos climáticos extremos. Em nome do “progresso”, defendem-se a flexibilização de leis ambientais e o avanço das fronteiras agrícolas sobre biomas sensíveis como o Cerrado e a Amazônia. Essa lógica de curto prazo ignora o fato de que o desmatamento, ao reduzir a cobertura vegetal, interfere diretamente nos chamados “rios voadores” correntes de umidade que transportam vapor d’água da Amazônia para o Centro-Sul do país. Quando esses fluxos enfraquecem, regiões agrícolas como o Paraná e o Mato Grosso do Sul enfrentam secas mais severas e temporais cada vez mais destrutivos.

O paradoxo é evidente: o agronegócio depende da chuva, mas destrói as florestas que a produzem. Depende da estabilidade do clima, mas contribui decisivamente para seu colapso. No entanto, há caminhos possíveis para mudar esse quadro. Experiências de agricultura de baixo carbono, integração lavoura-pecuária-floresta e plantio direto mostram que é viável conciliar produtividade e sustentabilidade. Além disso, políticas públicas de incentivo à recuperação de áreas degradadas e certificação ambiental podem transformar boas práticas em regra e não em exceção de vitrine.

O tempo está mudando  e com ele, o próprio tempo histórico do agronegócio. O mundo começa a cobrar rastreabilidade e responsabilidade ambiental, e mercados internacionais já penalizam produtos associados ao desmatamento. O gigante do campo brasileiro precisa compreender que o clima não é um inimigo a ser vencido, mas um aliado a ser protegido. Afinal, sem floresta não há chuva, e sem chuva não há colheita. O futuro do agronegócio depende, mais do que nunca, da harmonia entre a produção e a natureza.

Referências

MapBiomas. Relatório de Desmatamento 2023.

Embrapa. Emissões de carbono na agropecuária brasileira, 2024.

Brasil de Fato. Agropecuária responde por 74% das emissões de poluentes em 2023.

MDPI (Agriculture e Climate). Estudos sobre perdas econômicas e estiagens no Brasil, 2024.

Governo do Paraná e Defesa Civil. Relatórios de impacto climático no Sul do Brasil, 2024.

CIANORTE 09/11/2025