Um olhar crítico sobre os limites da eficiência técnica na educação brasileira
Durante as últimas semanas, muitas coisas eu vi e muitas crianças escutei. Em sua maioria, os desabafos foram os mesmos: “O que estou fazendo aqui? Para que me serve esta prova? Estou cansada(o), não faz sentido etc.” Essas falas refletem o distanciamento entre a escola e os alunos, evidenciando os limites da pedagogia tecnicista e das avaliações padronizadas.
Penso que a educação, em qualquer sociedade, deve ser instrumento de emancipação humana e transformação social. No entanto, a pedagogia tecnicista, ao reduzir o ensino a um conjunto de técnicas e procedimentos voltados à eficiência e produtividade, revelou-se incapaz de cumprir esse papel. Inspirada em modelos empresariais e industriais e hoje financeiros (Capitalismo 4.0), essas concepções tratam a escola como uma fábrica e o aluno como produto algorítmico do capitalismo financeiro, desconsiderando a dimensão crítica, social e cultural do ato educativo. Paulo Ghiraldelli (2025) alerta que a lógica do capitalismo 4.0 intensifica a mercantilização do conhecimento, transformando a educação em uma ferramenta de produção de indivíduos adaptáveis ao mercado, em vez de cidadãos críticos.
O tecnicismo educacional ganhou força no Brasil a partir da década de 1960, especialmente durante a ditadura militar, sob influência do positivismo e das teorias da administração científica. Sua proposta central era formar indivíduos “competentes” para o mercado de trabalho, ajustando a educação às demandas econômicas do sistema capitalista. Nesse contexto, o professor passou a ser um executor de métodos previamente definidos, enquanto o aluno foi reduzido à condição de mero receptor de informações. O ensino transformou-se em um processo mecanicista, centrado em resultados padronizados e em avaliações quantitativas, distanciando-se do verdadeiro sentido da formação humana.
Contudo, a pedagogia tecnicista demonstrou rapidamente suas limitações. Ao desprezar o contexto social dos estudantes e a diversidade cultural brasileira, ela produziu uma educação desumanizada e alienante. Em vez de promover a emancipação intelectual e política, reforçou as desigualdades e o conformismo, formando indivíduos treinados para obedecer e reproduzir padrões, e não cidadãos críticos capazes de transformar a realidade. Além disso, ao retirar a autonomia do professor e substituí-lo por um simples aplicador de técnicas, essa pedagogia empobreceu o processo educativo e desmotivou o corpo docente.
Essa lógica mesmo fracassada, ainda se mantém viva nas atuais políticas de avaliação em larga escala, como o SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Embora apresentado como instrumento de diagnóstico, o SAEB reforça a visão tecnicista de ensino, centrada em números, índices e metas, ignorando as particularidades culturais, regionais e humanas da escola brasileira. Ao transformar a aprendizagem em estatística, o sistema contribui para o empobrecimento da prática pedagógica, estimulando professores e gestores a “ensinar para a prova”, em vez de desenvolver o pensamento crítico e criativo dos alunos. O que deveria ser uma ferramenta de apoio tornou-se, na prática, um mecanismo de controle e padronização que esvazia o sentido da educação pública. (Basta ver os vídeos curtos que as crianças são inconscientemente forçadas a fazerem nas escolas).
Pensadores como Paulo Freire, Dermeval Saviani, Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro denunciaram com veemência o tecnicismo educacional. Freire o definiu como uma “educação bancária”, em que o saber é depositado no aluno sem reflexão. Saviani propôs a pedagogia histórico-crítica, que articula o conhecimento científico à prática social, defendendo uma educação transformadora e voltada para a consciência de classe.
Dessa forma, o fracasso da pedagogia tecnicista e de seus desdobramentos modernos, como o SAEB está em sua visão limitada do ser humano e da função social da escola. Ao priorizar a técnica em detrimento da reflexão, ela esvazia o sentido político e cultural da educação. Superar essa herança trágica, significa recuperar o papel libertador do ensino, valorizando o pensamento crítico, o diálogo e a formação integral do sujeito. Somente uma pedagogia humanizadora e integral poderá transformar a educação em um verdadeiro instrumento de justiça social e emancipação.
Por uma Educação Libertadora e Humanizadora
Como já disse, superar o fracasso do SAEB e da pedagogia tecnicista exige uma mudança profunda de paradigma. É necessário substituir a lógica da mensuração pela lógica do sentido, trocar a competição pela cooperação e valorizar o diálogo como instrumento central do processo educativo.
Como ensina Paulo Freire, educar é um ato de libertação, e não de domesticação. A escola deve ser um espaço de escuta, diálogo e reflexão crítica sobre o mundo. Dermeval Saviani acrescenta que é preciso articular a prática pedagógica à realidade concreta da classe trabalhadora, entendendo a educação como um ato político que deve contribuir para a transformação social.
A reconstrução da educação pública brasileira depende da valorização dos professores, da democratização do acesso ao conhecimento e da criação de instrumentos de avaliação que considerem não apenas o desempenho quantitativo, mas também a dimensão humana, cultural e social do aprendizado. Como sonharam Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, é urgente que o Brasil invista em uma escola pública viva, criativa e inclusiva, uma escola que forme cidadãos críticos, conscientes e capazes de reinventar o próprio país, sua independência e soberania. Somente assim deixaremos para trás a educação tecnicista que fracassa e construiremos uma pedagogia verdadeiramente libertadora, na qual o ensino sirva à emancipação humana e à transformação da sociedade.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017.
GHIRALDELLI JUNIOR, Paulo. Capitalismo 4.0: Sociedades e Subjetividades. 1. ed. São Paulo: CEFA Editorial, 2025. ISBN 978-65-85788-08-3.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: a pedagogia histórico-crítica. Campinas: Autores Associados, 2016.
TEIXEIRA, Anísio. Educação: planejamento e ação. Brasília: Editora UNB, 2015.